UM OLHAR SOBRE AS FADAS DE FLÁVIA CÔRTES

 

                                                                                                                                                                                                                                    Regina Michelli (UERJ)1

 

1 Mestre e doutora em Literatura Portuguesa pela UFRJ; pós-doutorado concluído na USP e em andamento na UFU, com pesquisa na área de Literatura Infantojuvenil. Contato:reginamichelli@globo.com, r.michelli@gmail.com

Resumo: Em tempos pós-modernos, histórias da tradição são relidas, recontadas, reescritas. As fadas fazem parte desse universo. Suas origens se perdem nas brumas dos celtas, das sacerdotisas e pitonisas romanas, das deusas da mitologia de vários povos. Persistem evocando a magia do feminino. Nosso olhar recai sobre duas obras da escritora Flávia Côrtes: O portal das fadas e Senhora das névoas.

Palavras-chave: Literatura Infantojuvenil; Fada; Flavia Côrtes.

                                                                                                                                                                                                           A Natureza as fez feiticeiras. – É o gênio próprio                                                                                                                                                                                                              à Mulher e seu temperamento. Ela nasceu Fada.                                                                                                                                                                                                                                                                         Jules Michelet

 

                                                                                                                                                                                                                                            Eu sempre acreditei em fadas.                                                                                                                                                                                                                                                                            Flávia Côrtes

Introdução

   Em tempos pós-modernos, histórias da tradição são relidas, recontadas, reescritas. O texto literário que emerge desse processo apresenta um novo frescor ao iluminar histórias que embalam a humanidade desde há muito. As fadas (MICHELLI, 2013) fazem parte desse universo. Vêm de tempos esquecidos, tempos de mulheres respeitadas, com poderes percebidos como sobrenaturais, a começar pelo milagre de gerar vida. Elas pertencem ao maravilhoso (LE GOFF, 2010), geralmente desempenhando uma mediação mágica de auxílio a seus protegidos, com a função de prever e prover (COELHO, 2000) o que eles precisam na realização de seus desejos. São descritas como seres geralmente belos, imortais, dotados de poderes sobrenaturais cujo símbolo é a varinha de condão. Suas origens se perdem nas brumas da cultura céltico-bretã, das sacerdotisas e pitonisas romanas, das deusas da mitologia de vários povos, assinalando a soberania da mulher:

Segundo o registro mítico-literário, os primeiros contos de fadas teriam surgido entre os celtas, povos bárbaros que, submetidos pelos romanos (séc. II a.C./séc. I da era cristã), se fixaram principalmente nas Gálias, Ilhas Britânicas e Irlanda. A essa herança céltica, é atribuído o fundo de maravilhoso, de estranha fantasia, imaginação e encantamento que caracteriza as novelas de cavalaria do ciclo bretão (ciclo do Rei Artur e seus Cavaleiros da Távola Redonda e sua Dama Ginevra). Foi, pois, nas novelas de cavalaria que as fadas teriam surgido como personagens, representando forças psíquicas ou metafísicas. (COELHO, 2000, p.175)

   As fadas existem entre nós ainda hoje, circulando nas letras de livros, nas telas de cinema e hipertexto, nas imagens. Persistem evocando a magia do feminino. Há várias escritoras contemporâneas em cujos textos emergem fadas e bruxas, mas nosso olhar recai em obras da escritora Flávia Côrtes: O portal das fadas e Senhora das névoas.

 

O portal das fadas

   O protagonismo infantil, o enredo sem grandes conflitos, ainda que tecendo o suspense na narrativa, as ilustrações de Thaís Linhares e o design visual do livro permitem a inserção da obra para o público infantil. A história se nutre do contato entre Luana, a personagem menina que crê em fadas, e Jasmim, a única fada que acredita na existência de seres humanos. A entrada para o Reino das Fadas encontra-se no jardim da casa da menina, espaço ameaçado de extinção pelo pai de Luana.

   A obra de Flávia Côrtes tematiza a importância da fantasia em meio a perspectivas adversas. A narrativa define-se por dois espaços díspares, interligados por um jardim: de um lado, o reino das fadas, de outro, a casa de uma família humana.

   O jardim simbolicamente representa o Paraíso terrestre, centro do Cosmo, sendo simultaneamente a representação do Paraíso celeste, de acordo com Chevallier e Gheerbrant (2002, p.512), simbologia que ratifica a ligação entre o empírico e o maravilhoso. Ele é o espaço de fronteira, abrigando a entrada para o Reino das Fadas, “entre um pé de azaleia e um pé de capim-limão” (CÔRTES, 2012, p.6), por onde as fadas adentram o reino, que se mantém escondido dos olhares alheios. A entrada remete ao portal do título, a uma porta, cujo significado, segundo os autores já citados, aponta para “o local de passagem entre dois estados, entre dois mundos, entre o conhecido e o desconhecido, a luz e as trevas, o tesouro e a pobreza extrema. A porta se abre sobre um mistério. [...] É o convite à viagem rumo a um além...” (2002, 734-735). Esse é o convite que a obra faz ao leitor.

   No reino das fadas, as casas são de pétalas de flores. O trabalho desses seres sobrenaturais é cuidar da natureza, para que tudo esteja perfeito. À superfície, a terra dos homens, cuja ambiência se desenha por uma árvore, uma fonte com chafariz representado pela imagem de uma fada, um banco velho - o espaço parece abandonado, a família de Luana mudara-se para ali, aparentemente há pouco tempo. O pai da menina

quer limpar o jardim, arrancando o mato existente, incluindo o pé de capim limão que esconde o portal. Essa intenção ameaça a permanência das fadas naquele lugar.

   A narrativa, porém, ultrapassa o conflito que se estabelece entre os seres dos planos maravilhoso e empírico: de um lado, a preservação do reino das fadas e da própria natureza; de outro, a limpeza do local. A história, como num espelho, reduplica situações, alternando pontos de vista. No reino feérico, as fadas não acreditam na existência de crianças e, por extensão, de gente humana, exceto uma fada pequenina, Jasmim, que insistentemente anuncia sua crença, despertando o riso nas demais. Do outro lado, no “outro mundo” – porque o primeiro a ser mostrado é o das fadas -, Luana é uma menina que acredita na existência de fadas, também despertando o riso do irmão, que parece ser mais velho pela forma como se dirige a ela. Lucas, o irmão, tal como o pai, não acredita em fadas. A narrativa mostra dois mundos que se reduplicam especularmente, apresentando-se o jardim como ponto de intercessão.

   Considerando o pacto ficcional, crença e descrença dependem do ponto de vista na narrativa, coexistindo ambas em cada espaço – feérico e humano -, em que se ratifica a existência ou o apagamento do Outro. A narrativa opera o deslizamento de uma perspectiva a outra, de acordo com o espaço e os seres que habitam esses espaços. Assim, há o Reino das Fadas, geralmente caracterizado como o mundo da fantasia, espaço feérico, apresentado, na história, como real para as fadas e Luana. A casa, a árvores, as figuras humanas caracterizam o mundo dito real, mas, do ponto de vista das fadas, seres humanos não existem, exceto para Jasmim. Quando a perspectiva passa a ser a de Lucas e seu pai, o mundo feérico é que desaparece. Assim, realidade e imaginação/fantasia permutam posições, diluindo fronteiras. De certa forma, a narrativa incentiva a vivência da alteridade ao permutar situações e esmaecer diferenças.

   A técnica de duplicação especular evidencia-se também no diálogo entre texto e imagem, que alternam posições. No início e ao final da narrativa, o texto verbal e o não- verbal ocupam integralmente páginas distintas, lado a lado. As três primeiras páginas trazem o texto verbal à direita e o não-verbal à esquerda, na quarta página invertem-se as posições; processo semelhante ocorre ao final. Algumas páginas centrais, porém, trazem as palavras acima das ilustrações, mas a que apresenta as personagens Luana e Jasmim, respectivamente às páginas 18 e 19, emblematicamente apresentam as imagens acima e o texto verbal abaixo, única a trazer esse tipo de composição, o que pode

significar a importância das protagonistas e seus respectivos mundos. A obra intercambia posições, ideologias e crenças, fato confirmado também na ilustração.

   Assim, por meio do narrador e da voz das protagonistas, a narrativa perspectiva a questão da crença no invisível, numa defesa inicial da fantasia, independentemente do mundo ficcional em que nos situemos, se o feérico, se o humano. Igualmente nos dois há o demérito e a desqualificação dos seres menores que parecem acreditar na fantasia, quando os maiores já ultrapassaram essa etapa – “coisa de fadinha”, “Menina boba”, “Bebezona” (2012, p.14, 10, 27, respectivamente). Jasmim é inventadeira, enquanto Luana é chamada de mentirosa. A uni-las, a defesa do sonho e do faz de conta.

   A narrativa parece desposar uma perspectiva que ilumina o feminino, estabelecendo certa aliança entre mãe, filha e fadas, fazendo confluir os dois mundos. A fantasia, a emoção, a sensibilidade, a manutenção do sonho e a preocupação com a cura encontram-se nessas personagens. O lado masculino, representado pelas personagens de pai e filho, evidenciam a preocupação com a ordem, a limpeza, a racionalidade.

   Alguns marcos interessantes ajudam a inserir a história na ambiência de um conto de fadas, além da presença das próprias fadas: o começo com “Era uma vez”; o tempo em que a narrativa se passa (primavera); o chafariz no mundo humano, reproduzindo artisticamente a figura de uma fada; o final feliz.

Senhora das névoas

   O segundo livro, Senhora das névoas, de maior extensão, é um convite a revisitar a cultura celta e o universo do medievo, apresentando conflitos acentuados entre o bem e o mal, estrutura narrativa complexa, protagonismo juvenil e temas caros à adolescência, obra mais direcionada a jovens e a adultos que não perderam o encantamento por histórias maravilhosas. A narrativa, tal como a primeira, configura dois mundos singulares, o das fadas e o das personagens humanas.

   O Reino das Fadas, nomeado Avalon ou Ynys Afallach, é um espaço protegido dos olhos humanos pelas névoas que cercam a ilha sagrada e pela barreira natural de suas árvores, as macieiras. A origem celta assinala ser “uma terra de inigualável beleza, onde o tempo corre de outra forma e a dor não existe” (CÔRTES, 2011, p.17), responsável por manter o “equilíbrio dos quatro pilares do mundo: terra, água, fogo e ar.” (CÔRTES, 2011, p.17).     Recorrendo-se novamente a Chevalier e Gheerbrant, “A ilha, a que se chega apenas depois de uma navegação ou de um voo [portanto, por água ou pelo ar], é o símbolo por excelência de um centro espiritual e, mais precisamente, docentro espiritual primordial.” (2002, p.501, grifos dos autores). Acrescentam os autores citados que “Os celtas sempre representaram o outro mundo e o além maravilhoso dos navegadores irlandeses sob a forma de ilhas, localizadas a oeste (ou ao norte) do mundo.” (2002, p.501).

   Para Paul Verdier, o mundo dos celtas é composto por dois reinos, o dos humanos e o outro mundo, misterioso, que não corresponde ao mundo dos mortos cristão. A região do outro mundo é a sede de uma outra vida, situada no extremo oeste do mundo, cuja zona de fronteira é o mar: “Para os celtas orientais, o mero fato de partir para uma longa viagem ao Ocidente marinho significa que o viajante enceta uma viagem para o outro mundo a fim de conhecer os temas misteriosos do outro reino.” (VERDIER, 2000, p.686). O Outro Mundo é, inevitavelmente, espaço do sobrenatural.

   A trama envolvendo o mundo feérico inicia a obra, no chamado prólogo, narrando acontecimentos que aconteceram há três séculos, dado que só descobrimos ao longo da leitura. No capítulo “Noite Sem Fim”, Eileen, uma fada, se apropria do cálice sagrado para entregá-lo a um mago druida, humano, por quem era apaixonada. O cálice confere imortalidade a quem o possuir e souber usar. O gesto de Eileen caracteriza um furto e uma traição a seu povo, os sidhe (a que a autora explica: “Os Sidhe (Sidh no singular – pronuncia-se xi)” (CÔRTES, 2011, p.71). Eileen é banida da ilha e da convivência com seu povo para sempre, ainda que permaneça com os poderes da fada. Ela acompanha o mago e passa a viver entre os humanos.

   As personagens humanas vivem no Rio de Janeiro e, ainda que a cidade não seja nomeada, as referências ao Bosque da Barra, à Pedra da Gávea e à imagem do Gigante Adormecido denunciam o espaço geográfico. Isa, a protagonista, namora Luca, com quem pretende se casar, e se prepara para o vestibular, objetivando cursar medicina. Ela e o namorado estudam no mesmo colégio e têm amigos comuns: Bianca, Sara e Maurício, que compõem o grupo juvenil de personagens principais da intriga. Filha única, Isa vive com seus pais num condomínio de apartamentos, mantendo com eles uma convivência salutar. Outra personagem de relevo nesse espaço é Viviane, a vizinha que cultua os hábitos do povo celta. Isa vive uma “vida perfeita” (CÔRTES, 2011, p.37), em sua percepção, com planos previamente definidos, almejando o viveram “Felizes para sempre.” (CÔRTES, 2011, p.37). Os dois mundos, porém, vão se cruzar.

   Quando estava no bosque com Luca e os amigos, Morgana, a Senhora do Lago, surge para Isa e anuncia-lhe um novo destino: ela é uma faerie, descendente direta de Morgana e dela dependerá a continuidade de Avalon, ainda que as trevas já se aproximem, na advertência da rainha das fadas. Há algumas condições: aceitar esse destino, vencer as próprias paixões, desenvolver seus dons por meio de treinamento, esperar que o ciclo se complete. “É hora de acordar” (2011, p.14), lhe diz Morgana, como se até aquele momento a protagonista vivesse dormindo, imersa em uma vida controlada por ideais pequenos, ajustados a uma realidade cotidianamente limitada.

   O termo fada remete à palavra latina feminina, fata, considerada uma variante rara de fatum, fado. As fadas são associadas a deusas responsáveis pela ordenação da vida humana em diversas mitologias: “Ao se associar à ideia de destino, a fada aproxima-se das Moiras gregas, das Parcas latinas ou das Nornas nórdicas, todas representadas por divindades femininas.” (MICHELLI, 2013, p.65)

   A revelação de Morgana a Isa acontece, não por acaso, no dia de Samhain, o ano novo celta, início do inverno, que significa também o início de um novo ciclo, momento em que decisões importantes com relação ao futuro são tomadas e, por isso, é a noite dos ancestrais, que cuidam de seus descendentes e são honrados nessa noite.

   A obra compõe-se, assim, de duas narrativas simultâneas, relativas a espaços e ações diferenciadas, com interferência das fadas Morgana e Eileen no mundo dos humanos (e, mais à frente, Arthur), entendendo-se que Isa vive no espaço urbano, mas desliza, por pertencimento, para o território das fadas.

   A história do mundo feérico é apresentada por narrador em terceira pessoa, com letras em itálico, referindo-se a acontecimentos passados: focaliza Avalon, a traição de Eileen com o roubo do cálice sagrado, o aparecimento de Morgana no momento em que a fada entrega o cálice ao mago, o rompimento de Eileen com o amado, que a decepciona.

   A outra narrativa, referente ao mundo humano, caracteriza-se por um narrador em primeira pessoa, autodigético. É Isa, a protagonista, quem narra os acontecimentos de seu ponto de vista, podendo expor seus sentimentos e conflitos. A narração em primeira pessoa apresenta, porém, o recurso ao flash-forward (ou prolepse), evidenciando uma narração a posteriori, ainda que, na maioria da história, o narrador pareça desposar o ponto de vista da atualidade dos fatos. Dois dados são antecipados pela narradora: a descoberta de que há fadas perversas (2011, p.47) e a participação de Artur, o novo colega de escola, em sua vida (2011, p.59). Situam-se, neste plano narrativo, os acontecimentos ocorridos com as personagens humanas, como a relação familiar, os problemas que surgem entre a turma de amigos, as interferências das fadas no mundo da protagonista. O ponto de vista parte das experiências de Isa.

   Além das duas narrativas marcadamente diferenciadas, há também, na obra, a “narrativa em abismo” ou mise em abyme, a história dentro da história, a narrativa principal sendo ressignificada por uma outra que lhe antecede. Nesse aspecto, encontramos um conto celta que Viviane narra a Isa, cujo conteúdo indicia o futuro da protagonista. Outra inserção é a busca de Isa pelo significado de fada, Sidhe, no computador, texto que aparece em itálico. Por último, destacamos a história que envolve o nome completo da personagem principal: Isabeau. O nome origina-se de um filme intitulado Feitiço de Áquila, de 1985, dirigido por Richard Donner: tal como no filme, em que a personagem feminina é amaldiçoada com a aparência de falcão apenas durante o dia, de sorte a nunca poder se unir a seu amado, lobo durante a noite, a protagonista também se vê dividida entre ser humana ou fada.

   A obra operacionaliza ainda algumas tensões, evidenciando temas caros ao público adolescente, no que tange, principalmente, à configuração de identidades. Um dos aspectos focalizados diz respeito à vida perfeita de Isa, perspectiva baseada numa ilusão, uma vez que ela desconhecia sua condição de fada; no outro polo, a ideia de aceitar o destino que lhe está sendo oferecido como ser pertencente ao mundo meta- empírico. A narrativa não desenvolve de forma linear as inquietações criadas por essa circunstância, que envolve a escolha da protagonista: Isa se sente atraída pelos dons de fada – que lhe conferirão poderes sobrenaturais -, mas reclama ser sujeito do próprio destino e permanecer como estava até então, sentindo-se usurpada em sua liberdade e, pode-se acrescentar, inconsciência. A personagem ouve que “Essa é uma jornada só sua” (CÔRTES, 2011, p.69), é uma prova (2011, p.70), o que significa atualizar a trajetória do herói: Isa tem uma missão, que é impedir a vitória das trevas, lutando para que Avalon não sucumba ao mal. A protagonista passa por uma prova iniciática e depende dela a escolha de ser ou não fada, cumprir ou não seu destino, continuar com seus planos na vida humana ou alçar novos voos. Abdicando, porém, da condição de fada não poderá se beneficiar dos poderes sobrenaturais desse tipo de personagem.

   Outra problemática que se impõe na narrativa, ligada ainda a configurações identitárias, é o apelo a “ser inteira”, a desenvolver-se integralmente. A fada Eileen associa ser inteira a aceitar as próprias potencialidades (2011, p.53). Dito de outra maneira, entendemos que a protagonista é conclamada a enfrentar dilemas ligados ao autoconhecimento, o que implica se defrontar com questionamentos que abrangem passado, presente e futuro, como: de onde vim, quem sou, qual a minha história, aonde pretendo chegar. Relacionado ao tema, surge, na narrativa, um poema de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa. O livre arbítrio da protagonista se mantém, a escolha entre permanecer humana ou transformar-se em fada é dela, mas a leitura atenta do poema pessoano é índice narrativo, indicando caminhos futuros da história.

Entretecendo as duas obras

   Observa-se, nas duas narrativas, a relação entre um Eu e um Outro, um mundo habitado por personagens humanas, de um lado, e, de outro, um mundo habitado por fadas e personagens do mundo feérico. Tomando de empréstimo à imagologia o conceito de imagem, vemos que

toda a imagem procede de uma tomada de consciência, por ínfima que seja, de um “Eu” relativamente a um “Outro”, de um “Aqui” relativamente a um “Ali”. [...] a imagem é a representação de uma realidade cultural através da qual o indivíduo ou o grupo que a elaborou (ou que a partilha, ou que a propaga) revelam e traduzem o espaço cultural e ideológico no qual se situam. O imaginário social a que nos referimos está marcado – vemo-lo - por uma profunda bipolaridade: identidade versus alteridade, em que a alteridade é encarada como termo oposto e complementar relativamente à identidade. (PAGEAUX, 2004, p.136)

   O reino das fadas configura um imaginário, diferenciado nas duas obras, imaginário entendido como “expressão, à escala de uma sociedade, de uma colectividade, de um conjunto social e cultural” (PAGEAUX, 2004, p.136), um universo simbólico que remete a valores por vezes abandonados, por vezes ressignificados, na nossa sociedade contemporânea ocidental: a existência do mundo meta-empírico ficcional assinala a necessidade de preservação da natureza, do cuidado, bem como de manutenção da fantasia e do maravilhoso nos textos literários.

   As duas narrativas sugerem a abertura ao Outro, um aqui e um ali que terminam por se tocar. N’O portal das fadas, o Outro se configura no território da fantasia, da imaginação, quer seja o reino das fadas ou dos humanos, dependendo do ponto de vista. O “Outro”, na Senhora das névoas, é o povo de Avalon, mas é, principalmente, Eileen, a “fada má” (2011, p.106), banida de seu povo, descrita pelo olhar desconfiado ou perspicaz de Isa, fada perdoada ao final por Morgana que enxerga méritos na personagem. Ela é o Outro, significando uma outra ordem a que Isa é convidada a adentrar, mas é também a alteridade a essa mesma ordem, que ela traiu. Por isso, ela espelha a necessidade de Isa vencer suas paixões, para que o acontecido com a fada banida não se repita. Como afirma Pageaux, “O Outro é o que permite pensar de...outro modo.” (PAGEAUX, 2004, p.137). A experiência adquirida no contato com o Outro amplia a perspectiva ideológica das personagens protagonistas nas duas obras.

   As experiências de Isa não são partilhadas por ela com seus amigos de escola, tampouco com Luca, namorado e amigo. A imagem que Isa formula desse mundo outro, “estrangeiro”, estranho, e de sua experiência com os seres a ele pertencentes, faz com que ela, por vezes, considere estar enlouquecendo, percepção que ela estende aos demais se lhes contasse as histórias com fadas que passou a vivenciar.

   Na representação das fadas, no Portal, evidencia-se a necessidade de sobrevivência: arrancar o pé de capim limão não significa destruir o reino das fadas, mas a exposição do portal abala a segurança daquele mundo. A imagem construída desse universo reforça a exclusão, o empurrar para as margens: o reino se mantém no seio da terra, escondido. As fadas - e o que elas representam - precisam ser expurgadas, negadas pela racionalidade redutora, especialmente masculina na obra. Elas são personagens descritas como seres pequenos, por vezes também apequenados pelo imaginário social, única forma de sobreviverem no mundo ficcional criado.

As fadas

   Intentando, assim, proceder a uma categorização das fadas que emerge dessas duas narrativas, recupera-se o que usualmente se atribui à configuração da personagem:

A imagem que provavelmente existe num substrato coletivo corresponde a seres belos, por vezes alados, dotados de poderes sobrenaturais, o que lhes permite auxiliar e interferir na vida humana. Como as fadas não estão submetidas às leis de contingência física que cerceiam os humanos, não morrem e tudo podem realizar. Em sua varinha de condão repousa seu poder (MICHELLI, 2013, p.65)

   Lembrando a etimologia da palavra, pode-se destacar a fada portadora do Destino, relacionada às Moiras gregas, às Parcas latinas. Em Senhora das névoas, essa função aparece no início da narrativa, quando Morgana se revela à protagonista:

– Seu destino já foi traçado, Isa. Não lute. Apenas aceite. [...] Seu destino foi escrito há muito tempo, – ela continuou. – e me foi revelado pela própria deusa Dana. Você é uma descendente direta dos Sidhe, quando nós ainda convivíamos com os humanos. (CÔRTES, 2011, p.15)

 

   Nas duas obras, é delineada a fada como divindade ligada à natureza. Para José Carlos Leal (1985), ela é um espírito da natureza, associada aos gnomos, elfos e outros seres dessa espécie. Chevalier e Gheerbrant (2002) advertem para mudanças ocorridas no imaginário que cerca a figura das fadas: consideradas, originalmente, expressões da Terra-Mãe, elas sofreram um mecanismo ascensional ao longo da História, elevando-se do fundo da terra para a superfície, tornando-se espíritos das águas e da vegetação. Na mitologia germânica, de acordo com Leal, as fadas são divindades da natureza e integram a mesma categoria de elfos, gnomos, ondinas, gigantes, ogres, ninfas, faunos, seres, como elas, do maravilhoso. Dessa forma, as fadas germânicas podem habitar rios, bosques, árvores, flores, protegendo as áreas em que vivem.

   Em O portal das fadas, encontramos uma descrição que corrobora a ligação das fadas com a natureza: “vivem quase eternamente, são filhas da mata, do ar, da água e do fogo, e o trabalho delas é cuidar para que a natureza esteja perfeita.” (2012, p.18). EmSenhora das névoas, os Sidhe são caracterizados como tendo descido à Terra “para trazer paz e sabedoria aos seres humanos. Para viver entre nós, criaram o mundo feérico, um lugar de grande beleza e perfeição” (CÔRTES, 2011, p.71).

   Outra possibilidade de caracterização, segundo a própria obra, são as fadas elementais, seres primitivos, ligados à natureza, nem sempre benéficos e lindos:

Naquela noite, eu olhava com mais interesse para as pequeninas fadas que sempre via ao lado dela.
– São elementais, Isa. – ela explicou, notando meu interesse.
– Verdade que como vocês, faeries, elas podem mudar de forma? [...]

– Sim. [...] São seres da natureza que regem todos os elementos. Cada um de acordo com sua capacidade e elemento específico: terra, água, fogo e ar.
– Eu sei, e eles trabalham para manter o planeta em equilíbrio.
– Sim. São tão parte da natureza, que a própria existência deles depende de sua preservação. (CÔRTES, 2011, p. 63)

 

   A fada irlandesa é a banshee, a mensageira do Outro Mundo, ser dotado de magia e ligado à vida contínua, eterna, de quem descende a fada céltica: “Não está submetida às contingências das três dimensões, e a maçã ou o galho que ela entrega a alguém possuem qualidades sobrenaturais.” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2002, p.415). José Carlos Leal nomeia de fada medieval a personagem habitante das novelas de cavalaria do ciclo arturiano, a qual concorre ainda o conceito grego de feiticeira, como Circe e Medeia. Na obra de Côrtes, Morgana oferece uma maçã a Isa, evidenciando a importância da personagem, mas a representante, por excelência, da banshee é Morgana, a Senhora do Lago:

   O vestido longo, cor de marfim, tinha um fino cinto dourado amarrado na cintura, e era de um tecido tão delicado que não parecia real. Pele muito clara, longos cabelos escuros, quase selvagens, olhos ternos e um rosto de estátua antiga. A mulher mais linda que eu já tinha visto. (2011, p.13-14)

 

Igualmente bela é Isa, descrita por Bianca como muito linda, cabelos dourados e compridos, olhos verdes, magra. Eileen, fada do mal, também parece bela, olhos azuis expressivos, cabelos avermelhados compridos, puxados para trás, aparecendo as orelhas levemente pontudas, asas enormes; sua expressão transmite, de início, frieza e medo a Isa.

   

   Opera-se uma mudança no constructo que envolve a figura da fada durante o processo de cristianização na Idade Média. Segundo Leal, integrando crenças pagãs, fadas, sílfides, sátiros, sereias e outros seres sobrenaturais passaram a pertencer ao lado demoníaco, tornando-se entes desprovidos de alma e, portanto, corpos ocos, provindo de ilusões satânicas que o homem deveria evitar. Assim,

Tornou-se necessário dessacralizar a natureza, desvitalizar o poderoso elemento mágico, presente na cultura céltica e de um modo geral característico da infância da humanidade, para valorizar o domínio espiritual de Deus. Como a Igreja encontrou resistência para destruir essas crenças ou mesmo proceder à conversão do povo, utilizou a estratégia de sobrepor imagens e práticas cristãs às correspondentes pagãs, o que Jacques Le Goff denomina “obliteração” (1980: 211-214). (MICHELLI, 2013, p.66-67)

 

Considerações finais

   As histórias de Flávia Côrtes trazem-nos uma arquitetura narrativa em que os espaços se intercambiam, as personagens volatilizam papéis rigidamente definidos. Suas fadas configuram-se com identidades próprias, ainda que apresentem pontos em comum com um imaginário tecido ao redor desse constructo.

   As fadas de O Portal não são fadas madrinhas de personagens humanas, suas atribuições ligam-nas à natureza. Jasmim rompe com o próprio perfil desses seres na intriga, o mesmo acontecendo com Luana, a personagem infantil humana.

   Em Senhora das névoas, há uma configuração de um universo céltico que se imiscui a tempos contemporâneos, com uma personagem atual, Isabeau, convidada a assumir sua herança de fada. O inventário celta emerge em datas comemorativas, ciclos vitais, personagens femininas fadas, detentoras de poderes especiais e sabedoria, mas também falíveis e vingativas, delineando possibilidades variadas de leituras.

   A escritora de O portal das fadas e Senhora das névoas exemplifica esse procedimento ao configurar esse mundo Outro, “estrangeiro”, entretecendo diálogos que convidam a refletir sobre identidade e alteridade, preservação da natureza, autorrealização pessoal. Ela oferece ainda a seu leitor interessantes trilhas de leitura, como um convite para ultrapassar o portal da ficção e acessar um paratexto ao final deSenhora das névoas, lacrado, o “Arquivo Secreto das Fadas”. Boa leitura!

Referências

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário dos símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria – análise - didática. São Paulo: Moderna, 2000.

CÔRTES, Flávia. Senhora das névoas. Erechim-RS: Edelbra, 2011.
______. O portal das fadas. Ilustrações Thaís Linhares. São pulo: Prumo, 2012.
LEAL, José Carlos. A natureza do conto popular. Rio de Janeiro: Conquista, 1985.
LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média. Lisboa: Estampa, 1980. ______. O maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval. Lisboa: Edições 70, 2010.

MICHELLI, Regina. “Nas trilhas do maravilhoso: a fada”. Terra roxa e outras terras. Vertentes do Insólito Ficcional. Volume 26 (dez. 2013), p. 61-72. In:www.uel.br/pos/letras/terraroxa/g_pdf/vol26/TR26e.pdf. Acesso em 10.Fev.2019.

PAGEAUX, Daniel-Henri. Da imagética cultural ao imaginário. In: BRUNEL, Pierre; CHEVREL, Yves (Org.). Compêndio de literatura comparada. Trad. de Maria do Rosário Monteiro. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2004. p. 133-166.

VERDIER, Paul. “Mitos celtas”. In: BRUNEL, Pierre (org.). Dicionário de mitos literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000, p. 683-695.

Como citar: MICHELLI, Regina. Um olhar sobre as fadas de Flávia Côrtes. In: XVI Congresso Internacional ABRALIC, 2019, Brasília. Anais eletrônicos do Congresso Internacional ABRALIC 2019 ? Circulação, Tramas & Sentidos na Literatura. Brasília: ABRALIC - Associação Brasileira de Literatura Comparada, 2019. v. 1. p. 1241-1252.

 

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